domingo, 9 de dezembro de 2007

Caderneta de Telefones

As gavetas cheias de papéis velhos, crônica dos anos. Decido arrumá-los. É uma tarde, feriado. Espalho pelo tapete a infinidade de documentos e começo a olhar um por um, amassando alguns, separando outros. Encontro uma caderneta de telefones velha – muito velha e já inútil - e fico com ela nas mãos, indeciso, olhando para uma pipa recortada contra o céu meio nublado.

Uma caderneta de telefones... uma antiga caderneta de telefones é um opúsculo de promessas que envelheceram. Sonhos perdidos ou eternos. Imagino, e sei. Uma caderneta é a crônica das relações humanas, como por exemplo, Liga pra mim, meu bem, Ligo sim, meu amor, qual é o teu número?; a moça pega a caneta, ou o homem mesmo escreve, Quero muito voltar a te ver, Eu também, mas deixa que eu ligo pra marcarmos algo. Um beijo ardente de paixão é trocado, a caderneta é guardada. Provavelmente o homem ligará, ou não ligará, mas isso é relativo porque a caderneta registrou o resumo da paixão rápida e tresloucada que poderá ou não continuar. Se continuar, será a caderneta a protagonista - Onde está o número da Karlinha?, ah!, achei. Uma caderneta de telefones é o capítulo anterior ligando-se ao seguinte, filtrado pelo presente.

A caderneta é amarelada e triste na minha mão gasta. É miúda, pequena, e está quase completamente cheia de números e símbolos, grande parte ilegível. Folheio-a: nomes apocalípticos e seqüências numéricas agressivas, desconfiadas, sutis. Feições feitas de cinza levantam-se acordadas pelo vento misterioso da caderneta, abrem a boca num bocejo estertoroso (lamentação? raiva? despeito? afeição?) e desmancham-se. Folha por folha.

Uma caderneta de telefone é mais que ela mesma. A caderneta transcende a caderneta. É o testemunho do passado e a agonia do presente. O garoto que conheceu a garota perfeita, a mulher da sua vida, olha a caderneta em que marcou o telefone dela e hesita, Ligo ou não ligo? Ligo ou não ligo? Ou o homem que necessita falar urgentemente com um amigo no seu trabalho e treme de vergonha e timidez ao vislumbrar a seqüência no papel, Diabos, provavelmente não será ele quem atenderá, será outra pessoa, terei de mandar chamá-lo... não é melhor falar pessoalmente? Ou a velha mãe que deseja ligar para o filho e põe os óculos na ponta do nariz e acha o número na caderneta (tem péssima memória) e só então, com o fone na mão e os dedos nas teclas, pensa, E se aquela vadia dissimulada atender, não suporto nem a ouvir a voz dela, que desgraça, meu Deus, como o meu filho pôde cair nas mãos daquela víbora? Ou qualquer outro que olhe aflitivamente para o telefone interrogando a caderneta (não importa se continuando na linha ou desistindo da ligação), todos esses, todos eles, sofrem e penam perante a mudez do pequenino caderno. Expiam o pecado de hesitar.

Caderneta de telefones também é presságio. Continuidade. Uma caderneta pode ser a união tácita e futura de duas almas. O apaixonado solitário, sequioso da amada inconfessa, olha para a caderneta em que tem anotado o telefone dela e pensa, Um dia desses eu ligo, confesso meu amor, e ela entenderá, seremos felizes – essa certeza lhe embriaga o espírito de uma tranqüila certeza, afinal tudo está ali, bem perto, a felicidade está no fone e na caderneta: o rapaz é feliz. Caderneta também pode ser arrufo matrimonial, Quem é essa Rosângela, seu cachorro?, que Rosângela, meu bem?, Essa aqui, tá o número dela na sua caderneta!, ah! É uma amiga, Olha aqui, José, tu não brinca comigo, tu não brinca comigo: te mato e mato a bruaca também. Caderneta também pode ser esperança, liga pro Alberto, liga, quem sabe hoje ele não te empresta o dinheiro pra nossa viagem. Pode ser conjugação de olhares, Você tem o mais belo par de olhos que eu já vi, Muito obrigada, Será que podemos, um dia destes... Claro, claro, com o maior prazer, Então deixa eu marcar o teu telefone... Caderneta pode ser encontro e dúvida, Maria, olha o que eu achei nessa caderneta velha: o telefone do Mário – será que ainda é esse o número?

Eu prefiro caderneta velha. Tem a nostalgia do passado e transmite uma deliciosa indiferença contra o futuro. É um museu não tombado como patrimônio histórico.

O que seria do mundo e do homem sem a caderneta de telefones?, penso eu comovido, ainda com o caderninho na mão gasta. E não sei o que fazer com ele nesta tarde de feriado, observado pela pipa de um céu nublado e inescrutável.

Um comentário:

  disse...

Acompanhei link pra encontrar teu espaço virtual,,, e fiquei preso na descrição relativa ao nome do blog,,, belo!
...
Meus telefones ficam esquecidos em perdidos papéis pela casa,,, Mas qdo encontrados trasmitem a sensação de sempre: interrogação,,,, "de quem é esse número?!" rs

Abraços e conectadas invenções!