domingo, 20 de outubro de 2019
domingo, 22 de abril de 2012
Espelho Quebrado...
Primeiro considerou o longo caminho que se desenrolava na
forma de aléias de pedras brancas que se perdiam ao longe, desembocando numa
cadeia de montanhas cujos picos brancos resplandeciam com a luz do dia
nascente, para depois considerar a monstruosidade de seus pés descalços e
ensangüentados que mal agüentavam com o peso do corpo. Era com um sentimento de
íntimo orgulho que observava na sua pele as feridas que porejavam um sangue
fétido, e os olhos não conseguiam conter a imensa alegria ao ver a seus pés, num
trapo hediondo de sangue e horror, um cadáver de fisionomia idêntica à sua, com
a garganta aberta e os olhos opacos. Na destra ainda segurava uma faca
escarlate cujo cabo já se tornara visguento e insuportável ao tato. Ele
ajoelhou-se e examinou o corpo morto, como se investigasse a existência de
algum resquício distante de vida a tremeluzir no olhar imóvel. Ficou algum
tempo acariciando a pele lívida do outro, rindo-se sadicamente do esgar
desesperado que se desenhava naquele semblante cheio de um ódio inaudito, até
erguer-se lentamente, ainda fitando o cadáver. Quando a contemplação silenciosa
já não cabia na sua satisfação, ele permitiu-se gargalhar de uma forma malévola
que arrepiou os seus próprios sentidos. A gargalhada estendeu-se por todo o seu
sangue como um fluido de gelo que fechou sua boca abruptamente, mas o riso
ainda ecoava nos seus ouvidos quando se ergueu da cama num arranco violento,
suando, a lua alvacenta iluminando fragilmente o seu quarto. “Sonho estranho”,
disse consigo, o peito opresso. Temeu durante alguns segundos que tivesse
deixado escapar algum grito ou mesmo uma gargalhada que revelasse aos pais, que
dormiam próximos do seu quarto, que estivera sonhando, mas o medo dissipou-se
rapidamente, porque o único som que escutou foi o bater oco do seu coração.
Sentou-se na cama e ficou olhando um pedaço mais escuro
do assoalho, sem cansaço ou consciência. Desperto, contou os pisos que se
distribuíam harmonicamente, em losangos caprichosos e lisos que o surpreenderam
por não apresentarem qualquer mácula aparente. Uma limpidez brilhante cobria
aqueles pisos geometricamente recortados, e ele perguntou de si para si se
valia a pena ter uma forma definida e imutável, ser um liso losango ligado a
outros iguais a si, submetido ao pisar perpétuo de pés que sempre haveriam de
machucar-lhe a superfície, apenas pela certeza de resguardar-se da
imprevisibilidade de não possuir destino certo? Pois os losangos do piso tinham
a sua missão e essência devidamente representada pela própria função, que era a
de ornar o piso e torná-lo agradável às vistas e aos pés – nada ultrapassava ou
modificava sensivelmente essa função, e eles, se consciência tivessem, poderiam
amparar-se perpetuamente no consolo de terem seu lugar no mundo, um lugar seu
por direito, impossível de ser usurpado. Ele ficou alguns minutos refletindo
sobre essa idéia, sem pressa, os olhos agora acostumados à penumbra. Começou a
caminhar pelo quarto, sentindo uma vontade terrível de fumar, como já fizera
algumas vezes, escondido.
“Não consegue dormir?”, indagou uma voz que vinha do
umbral da porta. Ele voltou-se, observou a figura silenciosamente, mas não
respondeu. Apontou um caderno negro em cima da escrivaninha. Sobre a capa,
repousava uma caneta prateada a reverberar a luz do luar.
“Estava escrevendo, então?”, a figura adiantou-se, e a
quando a luminosidade natural bateu-lhe no rosto, foi possível distinguir o sorriso
que ornava o semblante de feições macias. Os olhos aquilinos de pupilas
alargadas denotavam um gênio tenaz que parecia suavizar-se pela bonomia inata
que resplandecia em seus gestos.
“Não é conveniente que fique aqui muito tempo, Rosana”,
respondeu-lhe, os braços cruzados. Tentou demonstrar certa irritação, mas não
conseguiu. Os músculos faciais não enrijeceram da maneira que ele desejava, e a
fisionomia continuou simplesmente pensativa.
“Somos primos, meu lindo, não há nada de mais no fato de
eu conversar um pouco com você no seu quarto”.
“Concordo, mas deve concordar que um papo entre um casal
de primos, no meio da madrugada, perto de uma cama, num quarto iluminado pela
lua... não é o quadro mais casto que se possa conceber”.
Rosana libertou uma risada argentina, que o moço temeu
por poder perfeitamente despertar os seus pais. Ela avançou para a escrivaninha,
arrebatou o caderno e o folheou, de pé. Ela vestia uma camisola que delineava
seu corpo adolescente, ao qual faltava ainda aquele apuro místico que somente o
tempo pode legar a uma mulher. Ele observou-a numa quietude absoluta,
recordando-se que há alguns meses ele tivera aquele corpo nos braços e sorvera
nele um prazer físico que o embriagou por horas.
“Acho melhor você deixar o caderno onde estava, virar as
costas e voltar para o quarto. Juro que conversamos amanhã pela manhã, logo que
me levantar. É melhor”.
Ela apenas volveu o olhar para a janela, balançou a
cabeça e bocejou.
“Não seja bobo, Carlos”.
O moço apertou os lábios, e sentou na cama. Voltou a
olhar para os losangos. “Descobri outra vantagem de ser um losango de piso: não
nutrir desejo sexual por ninguém, menos ainda pelas primas”.
Rosana aparentava ler com atenção algum trecho do
caderno. Declamou em voz alta:
Faces
voltadas para a lua
Noite
áspera fruindo a própria escuridão
Sorrisos
cálidos erguendo-se ao céu envaidecido.
E
como um rosário amoroso de luz, traduzindo uma oração,
O
reflexo da lua beija a água do rio adormecido.
Eu
não sei trovar sem cantar o infinito.
Ela ficou parada, os olhos ainda fitos no papel.
“Não entendi o verso final”.
Uma lufada de vento inquietou as cortinas. Carlos
suspirou, espreguiçou-se, olhou com tédio para o caderno aberto nas mãos da
garota, que o olhava agora com atenção.
“Nem eu mesmo sei. Ultimamente tenho escrito muita coisa
sem sentido”. Ele calou-se um pouco, sentindo uma emoção aquecendo seu sangue e
criando um bolo ligeiro na garganta. “Quando você não tem idéia definida de
coisa alguma, quando o seu mundo é composto apenas por etéreas teorias que tudo
explicam mas que não levam a qualquer conclusão prática, a literatura serve como
um derivativo ao alcance do tédio. O homem escreve sobre as páginas que se
apresentam à sua frente com a alma cansada, mas ainda aspirando a ideais que
estão muito acima deles, uma ânsia de se descobrir completo e unido ao mundo
que tenta compreender...” A sua voz tremeu um pouco, como se ele não soubesse
mais como completar o pensamento. Fixou os olhos em Rosana, ergueu a destra,
tentou esboçar um gesto que saiu tão impreciso quanto a forma das próprias
reflexões. “Eu não sei explicar”.
Foi
com ternura que Rosana achegou-se ao garoto, tomou-lhe as mãos e pousou-as
sobre as suas.
“Por
que precisa explicar? O importante não é sentir, como você me disse tantas e
tantas vezes neste mesmo quarto?”
Ele
aborreceu-se com a lembrança, levantou-se, olhou através da janela aquele
cenário tão conhecido das suas noites de insônia. Tão bom seria o mundo sem as
palavras, tão boa a vida sem os pensamentos insinuando-se no sangue, irrigando
os músculos, torrentes de dúvida e medo se estendendo aos gestos e perpetuando
a história da aflição e da dor... Alisou os cabelos que lhe irritavam os olhos,
tentando decifrar naquele silêncio repleto de grilos um segredo pelo qual
efetivamente valesse a pena morrer. Ah! Quantas noites devassara assim, o corpo
derreado na janela, estrelas coruscando num céu que se esvaía nas próprias e
infinitas profundezas, tudo indefinido, etéreo, fascinantemente inquietante...
Ah! O desejo sempre vivo de integrar-se àquele universo todo que lhe envolvia,
afastar de si o ódio enorme e profundo da vida em insano movimento, penetrar em
si mesmo e deixar de ser um indivíduo e tornar-se apenas uma coisa pensante, e
só, só, só!
Rosana
levantou-se, cingiu-se ao corpo do garoto. Puxou o rosto dele contra o dela,
contemplando-o de muito perto, transmitindo-lhe o seu hálito de menta em meio a
um respirar levemente alterado. Ele endireitou o corpo, cingiu-lhe a cintura,
esmagou-lhe os seios com a pressão de seu peito, e beijou-a com uma fúria
lasciva que estava a quilômetros de distância do desejo. Ficaram enlaçados, ela
com a cabeça apoiada nas espáduas dele, pensando em mil coisas, o coração
irrequieto, sentindo-se prestes a desfazer-se em arrepios por sentir, apertado
contra si, todo o calor daquele garoto que a intrigava e atraía – ele com a mãos
acarinhando distraidamente as costas da moça, as pálpebras derreadas,
tristemente preso ao contato doce da prima.
Subitamente
desprendeu-se daquele enleio, afastou-a rapidamente e precipitou-se na cama,
repentinamente desesperado. A garota assustou-se muito com a mudança de
atitude, recuou dois passos até encontrar o parapeito da janela, de onde, os
olhos atônitos, contemplou a face decomposta do primo.
“O
que houve?”, interpelou suavemente, uma nota de carinho vibrando na voz
cautelosa.
“Nada”,
respondeu Carlos, a face sombria. “Quero que você vá embora já... que me deixe
em paz... só isso”.
“O
que eu fiz?”, retrucou a garota, melindrada. O comportamento estranho de Carlos
a aborrecia muito.
“Nada...
só quero que vá embora”.
Carlos
deitou-se com o corpo virado para a parede, sem prestar atenção à prima, que se
retirou depois de contemplá-lo ainda por um minuto. Uma aragem suave entrou no
quarto, remexeu as cortinas, inquietou as resmas de papel dispostas em cima da
escrivaninha, despertou o caderno que, aberto, ergueu algumas páginas numa
sonolenta indagação. “Por que não consigo livrar-me desse permanente desespero?
O que me leva a tratar rudemente pessoas que não possuem nenhuma culpa?”
Apertou nas mãos a coberta, as unhas fazendo pressão contra a fazenda felpuda.
“Oh! Não fosse essa convicção de estar representando uma farsa!”
Sentou-se
na cama, agarrou o celular que deixara sob o travesseiro, e discou um número.
Ouviu o chamar ritmado e insensível repetir uma, duas, três, seis vezes, até
uma voz rouca e indolente murmurar “Alô?”.
“Gustavo?”,
pronunciou Carlos lentamente. Do outro lado da linha, o moço respondeu apenas,
com a mesma voz sonolenta: “O que você quer? Acho que não deve ter desaprendido
a ver as horas e a proceder com o mínimo de conveniência nas suas relações, não
é? Por isso, irei pedir a você que...”
“Deixe
para lá as conveniências e o horário, preciso dizer-lhe uma coisa. Eu tive um
sonho muito estranho. A impressão que ele produziu em mim é difícil de ser
explicada, e o significado dele escapa-me. Preciso contá-lo a alguém, por isso
elegi você para a tarefa de escutar-me. Ouça. Eu matava, com um talho na
garganta, uma pessoa de fisionomia idêntica à minha, e depois gargalhava, cheio
de crueldade, como se fosse um sádico. O problema não é o fato de eu ter
sonhado a morte de uma pessoa assassinada por mim, nem ter rido como um maluco
depois de tê-lo feito, mas o fato de a pessoa aniquilada ter um semblante igual
ao meu... E como estava desesperado o semblante daquela pessoa! A boca
contorcida, os olhos raivosos e perplexos, como se ainda não tivesse entendido
que estava morta, morta...”
Gustavo
pareceu escutar com atenção. O mau-humor por ter sido acordado durante a
madrugada desaparecera, o que sobrara era tão somente pasmo. Ele era um grande
amigo de Carlos. Juntos desenvolviam conversas eivadas de questionamentos e de
uma filosofia incipiente, mais teórica e etérea que prática e sistematizada.
Escutou ainda algum tempo o relato do sonho do outro, a face séria escondida no
escuro, a orelha latejando devido à pressão do celular.
“Não
ocorreu a você, Carlos”, manifestou-se ele, “ que esse tipo de sonho não é mais
que uma espécie de antevisão do nosso futuro? Digo nosso, porque comungamos de
várias concepções, teorias e filosofias que nos lançam em dúvidas sempre vívidas
e poderosas. Nós relativizamos tudo em nossas vidas, Carlos, e o fizemos cheios
de uma convicção orgulhosa...”
“Calma”,
interrompeu Carlos, a voz aparentando confusão, “ está me dizendo que esse
sonho não é mais que a demonstração de um estado psicológico doentio em nós
dois? Está me dizendo que nosso futuro é o suicídio? “
“Não
é isso”, redargüiu Gustavo. “O que digo é que nós, ao abdicarmos de nossos
dogmas religiosos, ao adotarmos uma postura de indagação permanente e
abrangente, ao colocarmos um ponto de interrogação na moral, nos costumes, no
nosso lugar no mundo, no objetivo de nossas vidas, nós fomos excessivamente
cruéis conosco. Destruímos nossos baluartes, e nos permitimos viver sob o signo
da pergunta. Rejeitamos como inverídicas as verdades que a religião nos deu no
seu pacotinho de preceitos cheios de mofo, buscamos nos livros e nos
pensamentos uma verdade pela qual pudéssemos viver, mas nessa busca nós
perdemos a base sólida que nos sustentava. Caímos, e o impacto quebrou algo
dentro de nós. Para o resto da vida, carregaremos uma fisionomia atormentada,
cujo reflexo será sempre idêntico ao de um espelho quebrado: os vários pedaços
dispostos a reverberar nossa imagem, ainda que lindamente unidos uns aos
outros, não deixarão de apresentar uma imagem fragmentada, confusa, avessa à
harmonia. Eu cheguei a essa conclusão há muito tempo, e cada vez me convenço
mais de que ela será a única certeza que me guiará doravante. Nós procuramos,
Carlos, uma verdade que fosse diferente daquela que nos foi entregue desde a
infância, uma verdade que fosse produzida por nós mesmo em nossa peregrinação
pelo pensamento e pelo sonho, mas a conclusão a que cheguei apenas me assegura
que terei sobre mim, até a morte, a inexorabilidade do sofrimento. E esse sofrimento
tem algo de diverso do sofrimento das pessoas que não indagam sobre as bases do
seu próprio ser, pois ele é mais profundo e poderoso naqueles que buscam um
sentido fora dos muros dentro dos quais nos vimos nascidos. Ninguém que se
atreva a pensar pode escapar à insígnia do desespero”.
Carlos
não objetou nada até Gustavo terminar a fala. O tom tranqüilo do outro o deixou
pensativo: ele falava de sofrimento e desespero constantes, mas a voz não traía
nenhuma emoção adequada à seriedade do assunto. Notou-lhe essa contradição.
“Você
não me entendeu bem. Meu ser, como o seu, terá sempre sobre si o peso dessa
crueldade inconsciente, dessa angústia, dessa desolação. Mas eu amo a vida, e
embora não veja nela senão uma sucessão de desgraças, há uma graça e um encanto
em seus prazeres, que reluto em deixá-la. Já leu Hamlet, não? O príncipe dinamarquês alega que as pessoas não se
matam e suportam as agruras por medo do desconhecido. Certo, muito bem, mas
isso não resolve o problema. Vivemos com medo e pelo medo. A resposta está
nessa afirmação? Se estiver, somos todos uma espécie depressiva e covarde,
submetida apenas a uma Vontade universal, como queria Schopenhauer, que se
nutre de desejos continuamente perseguidos, saciados, mortos e ressuscitados. A
resposta está também na Vontade? E por que não estará também na liberdade
impossível de se renunciar, como também a queria Sartre? Para onde olhemos,
para onde nos coloquemos a vislumbrar um sentido, esbarramos em conceitos
endeusados, em absolutos filosóficos que nos prendem tanto ou mais que a
religião ou a moral, e por fim num necessário motivo final. Nossas ações
precisam estar marcadas pela sombra teleológica. Se não está, é irracionalidade
que não se coaduna com a natureza humana. Se está, é ação condicionada a se
repetir até descortinar uma finalidade maior que nós próprios, uma ação que
ultrapassa nossa compreensão e apenas nos permite indagar novamente sobre a sua
razão suficiente. É um círculo vicioso, que os idiotas que criam sistemas de
idéias reputam como passível de ser vencido através da delimitação de um espaço
conceitual que sintetize e explique o homem. Mas nós, os artífices da
indagação, os obreiros das perguntas que rasgam entranhas e dilaceram a vida,
os pedreiros que destroem as casas sob as quais repousam e depois escondem-se
sobre os escombros, palpitantes e impotentes, nós vivemos com essa condição
irrenunciável de espelhos quebrados lutando para esquecer a própria imagem
partida, fitando o mundo com os olhos fechados, porque ele também não é mais
que um espelho de dimensões imensuráveis partido em pedaços grandes o
suficiente para ocultar sua face fragmentada”.
O
vento ainda batia nas cortinas, as páginas do caderno de Carlos erguiam-se de
quando em quando, revelando algumas linhas impossíveis de se distinguir na
penumbra.
“Se
eu disser que já havia pensado nisso...”
“Você
já teve todos esses pensamentos”, interrompeu Gustavo. “Não só os teve, como
ainda os acalenta dentro de si, e certamente só faltou externá-los. Eu já os
havia desenvolvido, e aguardava apenas para dizê-los. Mas não se preocupe tanto.
A sua prima está aí, não está?”
Carlos
desligou, abrupto. Ergueu-se, foi até o banheiro, lavou o rosto. Examinou, pormenorizadamente,
o rosto que se refletia na superfície lisa e perfeita do espelho. Depois
enveredou pelo corredor escuro, cujos quadros, pendentes das paredes, esboçavam
formas diáfanas. Estacionou uns instantes em frente ao quarto de hóspedes,
refletindo. Foi com um leve rangido, que soou como um gemido das dobradiças
ásperas, que a porta abriu-se cautelosamente, para depois ser fechada
cuidadosamente, como para proteger um segredo.
quinta-feira, 22 de setembro de 2011
O mesmo tédio dos holofotes silenciosos...
Amigo que me lês (se é que alguém adentra neste espaço ermo, hermético cubículo de palavras abandonadas que guardam sentimentos acres em suas linhas escassas), deves ser uma pessoa entediada. Outra conclusão não posso haurir da tua atitude - afinal, quem se meteria a analisar os escritos de um jovem enfadado senão um alguém capaz de compreender, ainda que minimamente, a carga de galante desamparo que viça na face deste autor? De certa forma, amigo, ambos estamos mal apoitados num mundo de pensamentos hesitantes e desencontrados. Entrevejo certo ressentimento ancestral nesses olhos que percorrem estas linhas - ah, a ânsia de defrontar-se com próprio eu no rosto remoto de uma outra pessoa, a rutilância esfumaçada que permeia a escuridão da alma, a perplexidade. Enrolamo-nos nessa amarga teia de sonhos, desenganos, muxoxos - emergimos de um pântano aparentemente indevassável e nos defrontamos nesta hora de mistério, "vis à vis", alheios a nós mesmos, a essência humana primária perdida nalgum recanto inconcebível. Que sobra de nós? De ti, nada consigo extrair. No ponto em que repouso, sentado deleitosamente numa cadeira almofadada, sem espaldar e sem desejos, só me acodem as forças necessárias para abstrair-me da minha própria humanidade o suficiente para que minha alma se recoste à sombra de alguma esperança muito antiga, muito lisonjeira e irremediavelmente indistinta. E tu? O que sentes enquanto tentas decifrar com fidedignidade esta ordália tautológica? Algum eco de sensações olvidadas assoma no pórtico de sua lembrança? Ou um nó inarredável prende tua garganta a algum sentimento que deve ser repreendido, compactado, escondido, aprisionado? A mim, esse circunlóquio se afigura como uma bela alternativa para sofrear estes ímpetos de arrojar-me numa rotina de autômato, sem memórias ou preocupações, ou precisamente com estas. A alma é dúbia: justamente quando parece se afogar numa placidez que só deve ser praticada nas paragens do Éden, uma cerração indefinível estaciona sobre a limpidez do céu anilado, corporifica-se numa neblina que paulatinamente recrudesce até constituir-se numa hera que escala os montes escarpados da alma e a domina por inteiro. Esse processo tem vários nomes pouco lisonjeiros: escuso-me de enunciá-los. Tu, que agora fitas o horizonte estreito da tua sala, do teu quarto, da tua realidade endurecida, te pões a refletir acerca das minhas considerações, enxugando um suor imaginário e edificando, com medido cansaço, as objeções pertinentes - objeções que teimam em permanecer no terreno utópico de onde nascem usualmente todas as inspirações. Nada te acode, tudo te escapa das mãos espalmadas: chapinhas no lodo do pensamentar, derrapas na fria ladeira do abandono intelectivo. É neste ponto que deixo-te só, a fruir com rancor moderado a letargia de uma tarde de quinta-feira que se vai encaminhando para o crepúsculo, malgrado a melancolia curvilínea que agora se prende às tuas pupilas.
terça-feira, 5 de julho de 2011
E a noite de frio e vento. Lá fora...
Arre, que o torpor dos séculos humanos, carregado com o ranço dos tédios mais denodados, e repassado às gerações supervenientes, está importunando novamente meus sentimentos. É a mesma coisa que se repete com litúrgica pontualidade, com irritante intermitência: primeiro me afogo em uma rotina hirta e inflexível, atento aos meus deveres, comprometido com as obrigações que as pessoas vão empurrando para o meu lado com desfaçatez; depois vou gradativamente perdendo o interesse nas coisas que antes atraíam minha atenção, deixo de perceber os pequenos detalhes que são capazes de infundir algum interesse a uma existência; por fim, depois de superar todas as agruras de um humor suspeito, faço questão de arrojar para longe toda a carga de responsabilidades e deleites que constituíram a nata dos meus dias pretéritos para então embrutecer-me nessa fastidiosa inamovibilidade, que irrita meu senso produtivo e faz-me perder todo o orgulho. É sentimento? É loucura? É indecisão? É apenas o gesto grave de quem já não encontra sentido nas coisas senão no momento em que artificialmente cria esse significado instável, cego e impertinente?
Escrevo isso e entao fito as paredes do meu quarto, um local seguro, caloroso, afável a minha intuitiva solidão. Janela, abajur, celular abandonado na cama, um navio em miniatura esculpido na madeira, um guarda-roupas, um grande espaço vazio no qual pretendo colocar uma escrivaninha, e eu, o objeto menos relevante nessa amálgama de insensibilidade. Desejaria escrever como Fernando Pessoa, oh, não conheci quem tivesse levado porrada, o dono da tabacaria sorrindo, o binômio de Newton arredando a beleza da Vênus de Milo, Deus meu, que digo eu? Tresvariando. Não: é ainda a manifestação do tédio, este galante e petulante e desconcertante e ainda assim fleumático tédio. Contudo, que é o tédio?, pergunta-me o filósofo que habita em mim. Para o inferno a filosofia, o niilismo, o ceticismo, o platonismo, o socialismo, o kantismo, todos esses arcabouços encarquilhados e cegos. Para o inferno, para a puta que os pariu - quem era o autor que dizia que o palavrão tem efeito catártico? Rubem Fonseca, creio eu. Intestino grosso. Sei.
Que fazer, "mon cher ami"? É uma noite de frio e vento. Lá fora... Poderia lavrar uma metáfora com isso, engendrar uma história, quebrar essa monotonia de sangue e gelo que me atormenta. Atormenta? Às vezes desconfio que todo esse descompasso, todo esse propalado desarranjo em relação ao mundo e às coisas seja apenas uma desculpa para desimpedir minha verborragia, para externar uma dor que não sinto, para asseverar sobre concepções que não acredito, divisar cenas que não vejo. O poeta é um fingidor que finge tão completamente que chega a acreditar que é dor a dor que deveras - Fernando Pessoa e seus apotegmas. Nascer de novo seria solução? Ressuscitar para uma nova realidade, na visão dostoievskiana - um caminho plausível.
O fato é que estou farto de semi-deuses.
E é uma noite de frio e vento. Lá fora... Lá fora?
Escrevo isso e entao fito as paredes do meu quarto, um local seguro, caloroso, afável a minha intuitiva solidão. Janela, abajur, celular abandonado na cama, um navio em miniatura esculpido na madeira, um guarda-roupas, um grande espaço vazio no qual pretendo colocar uma escrivaninha, e eu, o objeto menos relevante nessa amálgama de insensibilidade. Desejaria escrever como Fernando Pessoa, oh, não conheci quem tivesse levado porrada, o dono da tabacaria sorrindo, o binômio de Newton arredando a beleza da Vênus de Milo, Deus meu, que digo eu? Tresvariando. Não: é ainda a manifestação do tédio, este galante e petulante e desconcertante e ainda assim fleumático tédio. Contudo, que é o tédio?, pergunta-me o filósofo que habita em mim. Para o inferno a filosofia, o niilismo, o ceticismo, o platonismo, o socialismo, o kantismo, todos esses arcabouços encarquilhados e cegos. Para o inferno, para a puta que os pariu - quem era o autor que dizia que o palavrão tem efeito catártico? Rubem Fonseca, creio eu. Intestino grosso. Sei.
Que fazer, "mon cher ami"? É uma noite de frio e vento. Lá fora... Poderia lavrar uma metáfora com isso, engendrar uma história, quebrar essa monotonia de sangue e gelo que me atormenta. Atormenta? Às vezes desconfio que todo esse descompasso, todo esse propalado desarranjo em relação ao mundo e às coisas seja apenas uma desculpa para desimpedir minha verborragia, para externar uma dor que não sinto, para asseverar sobre concepções que não acredito, divisar cenas que não vejo. O poeta é um fingidor que finge tão completamente que chega a acreditar que é dor a dor que deveras - Fernando Pessoa e seus apotegmas. Nascer de novo seria solução? Ressuscitar para uma nova realidade, na visão dostoievskiana - um caminho plausível.
O fato é que estou farto de semi-deuses.
E é uma noite de frio e vento. Lá fora... Lá fora?
domingo, 24 de abril de 2011
Uma mente vadia...
Não costumo escrever sobre mim neste espaço. Na verdade, há bastante tempo que já não escrevo nada nesta nesga de mundo virtual que já congregou os meus sonhos e preencheu-me de esperanças a vaga mente de criança em rebeldia... A faculdade que abracei não deve ter me auxiliado neste particular. O curso de Direito, em que pese a propalada intenção de produzir profissionais humanistas, na proposta vetusta que secundou o decreto de imperial que criou no país o curso de Ciências Jurídicas, tem demonstrado - ao menos em minha tênue cosmovisão - acalentar o ideal de produzir seres capazes de decodificar as leis e os pensamentos humanos em teoremos linguísticos com conteúdo lógico, quase matemático. Há, obviamente, disciplinas que não se coadunam com essa rigidez, e seria perda de tempo enumerá-las. Falo de essência, de feeling, de qualquer coisa que transcenda a puta hemorragia do mundo cotidiano e investigue com mais nitidez as águas turvas da consciência humana...
Desculpe. Empolguei-me. É ainda resquício de uma existência entregue aos desvarios do sonho. Despi-me disso há algum tempo - não totalmente, é certo. Ainda não me tornei um misantropo, nem aspiro à tranquilidade que, dizem, somente um ermitão empedernido pode fruir em sua cascata de emoções primevas. Quando mais jovem - tenho vinte anos incompletos, no momento - acreditava numa série de coisas que hoje me fazem sorrir. O sarcasmo, que nos meus tempos de pré-adolescência era apenas uma existência parasita e inofensiva, parece invadir-me cada recanto da alma. Há resistência, certamente. Amo apaixonadamente uma princesa de dezessete anos de idade, de olhos verdes, boca magnética e ternura inesgotável. Mas uma boa parcela da alma já foi tomada por um sentimento indefinido, mescla de tédio, descrença, quietude, tranquilidade e sofrimento.
Na verdade, enfarei-me do tempo. Quando quedo silente, cheio de uma reverência ancestral pelas coisas mundanas que são maiores que minha compreensão, percebo que a poeira temporal mancha cada recanto de pensamento que eu possa engendrar, mesmo nos meus paraísos mais íntimos, e então nada mais interessa, tudo se sedimenta num tédio sem remédio, e ao final abandono qualquer quimera. A minha forma peculiar de observar o mundo, a calma com que procuro traduzir minhas impressões e conduzir a marcha de minha existência, não obstante os arroubos que eventualmente se me irrompem, e principalmente a paixão por uma rotina obediente, sem grandes sobressaltos nem emoções, desenvolvida num ritmo homogêneo, é sinal de uma resistência obstinada, uma indignação surda, contra as molas do tempo. Costumo reclamar de forma veemente contra a sua corrida insana, contra esse jeito linear que enseja a perda das melhores horas, trasvestidas em céleres sessenta minutos que mal conseguem abarcar as necessidades rotineiras. As pessoas que me escutam riem, dizem que é normal uma tal situação, que o tempo precisa exercer com bastante fidelidade o seu ofício. Discordo: o tempo tem acelerado a sua atuação, penetrado em domínios em que lhe não era facultada a entrada, e tem tomado de assalto as vidas.
Desculpe. Empolguei-me. É ainda resquício de uma existência entregue aos desvarios do sonho. Despi-me disso há algum tempo - não totalmente, é certo. Ainda não me tornei um misantropo, nem aspiro à tranquilidade que, dizem, somente um ermitão empedernido pode fruir em sua cascata de emoções primevas. Quando mais jovem - tenho vinte anos incompletos, no momento - acreditava numa série de coisas que hoje me fazem sorrir. O sarcasmo, que nos meus tempos de pré-adolescência era apenas uma existência parasita e inofensiva, parece invadir-me cada recanto da alma. Há resistência, certamente. Amo apaixonadamente uma princesa de dezessete anos de idade, de olhos verdes, boca magnética e ternura inesgotável. Mas uma boa parcela da alma já foi tomada por um sentimento indefinido, mescla de tédio, descrença, quietude, tranquilidade e sofrimento.
Na verdade, enfarei-me do tempo. Quando quedo silente, cheio de uma reverência ancestral pelas coisas mundanas que são maiores que minha compreensão, percebo que a poeira temporal mancha cada recanto de pensamento que eu possa engendrar, mesmo nos meus paraísos mais íntimos, e então nada mais interessa, tudo se sedimenta num tédio sem remédio, e ao final abandono qualquer quimera. A minha forma peculiar de observar o mundo, a calma com que procuro traduzir minhas impressões e conduzir a marcha de minha existência, não obstante os arroubos que eventualmente se me irrompem, e principalmente a paixão por uma rotina obediente, sem grandes sobressaltos nem emoções, desenvolvida num ritmo homogêneo, é sinal de uma resistência obstinada, uma indignação surda, contra as molas do tempo. Costumo reclamar de forma veemente contra a sua corrida insana, contra esse jeito linear que enseja a perda das melhores horas, trasvestidas em céleres sessenta minutos que mal conseguem abarcar as necessidades rotineiras. As pessoas que me escutam riem, dizem que é normal uma tal situação, que o tempo precisa exercer com bastante fidelidade o seu ofício. Discordo: o tempo tem acelerado a sua atuação, penetrado em domínios em que lhe não era facultada a entrada, e tem tomado de assalto as vidas.
É domingo. A noite já começa a tornar-se mais sólida e perceptível no céu desmaiado. Novamente, consegui escrever apenas o suficiente para deixar impressa uma algaravia de impressões descontextualizadas que mal merecem uma atenção mais cuidadosa. O jeito, pelo visto, é recolher-me ao meu silêncio repleto de palavras arrevesadas, de frases engulhadas em estômagos hipotéticos, de hesitações e imprecisões, e persuadir-me, de uma vez por todas, que não há literatura que baste para conjurar o desespero tão inocente de existir.
domingo, 27 de dezembro de 2009
Melodia incipiente…
Do alto do morro, o homem contemplava a paisagem que se estendia por quilômetros silenciosos. De quando em quando suspirava. Era uma hora calma, os pássaros guinchavam, longínquos, no céu as nuvens faziam-se e desfaziam-se, preguiçosamente. Ele refletia – mas não seria capaz de definir o conteúdo de seus pensamentos. O que importava eram os sentimentos inexplicáveis que o assolavam naquele espaço plácido. Eram um misto de tranquilidade e desespero – uma amálgama de sentimentos tão difusos que as palavras não comportariam qualquer descrição.
Subitamente ele fechou os olhos, procurou cegamente os caminhos de sua felicidade naquele instante de placidez que o atravessava como uma faca, os olhos fechados, o rosto retesado, as mãos repousadas sobre o parapeito do mirante. Ficou algum tempo nessa atitude, distante da indigesta humanidade que o angustiava e preso naquela condição primária de ser vivo relutando em morrer. Quando abriu os olhos, as pupilas brilhavam tristemente. Os lábios descerraram-se, e o homem começou a cantar, incipiente como uma criança que acabasse de descobrir a existência de melodias no ar do mundo – enquanto uma aragem fresca agitava a copa das árvores e o tempo estacionava seu cansaço sobre a terra em perene inquietude
terça-feira, 27 de outubro de 2009
O HOMEM E O DESESPERO

Em um dia de sol opaco – e era um dia de inverno, as rosas murchas nos recantos de muro, as crianças inexpressivas em seus silêncios enregelados, as rugas marcando mais profundas a existência das mulheres – um homem foi chamado frente ao Desespero. Atirou longe o monumental agasalho que trazia, descobriu o rosto oculto por um capuz, afastou de si as malas hipotéticas que trazia a tiracolo, e macilento, como um defunto que se apresentasse ao ritual de seu sepultamento, ele se apresentou frente o Terror dos Homens. Nos seus olhos frios o Desespero esperava, e murmurava palavras incompreensíveis. Depois de um tempo de mútua contemplação – externo a eles, o hálito dos zéfiros e a o hirto caminho de uma realidade em agonia – o Desespero sorriu, e exprimiu-se em palavras tais: ‘Tu, grande homem, símbolo duro de um tempo duro, insígnia da ternura numa dimensão de pegajosa ternura, tu, que ousou definir-te justamente quando já não eras capaz de suportar qualquer definição, tu, enfim, vens te colocar frente a mim! És a recompensa caçada entre as trevas, o prêmio a que me reservei num instante de cobiça... Agora vês o quão inúteis eram teus objetivos, quão ridículos os teus sonhos!... Dei-te o amor mais puro, o néctar da paixão ardente, e quando mais julgavas seres capaz de fazê-lo frutificar, de vencer o tempo e as agruras que tornam em ruínas o belo ao cabo de segundos, fiz com que ele apodrecesse pouco a pouco na tua boca, para que te não sobrasse nem ao menos a lembrança saborosa do deleite de antanho... Dei-te a presunção de abarcares com o teu saber todas as portas do sucesso e da filosofia, guiei-te por meio dos meandros mais sinuosos até que te percebeste submerso no lodo que tu próprio tinhas despertando com teus passos seguros... Dei-te amigos, e a volúpia de tê-los ao pé de si, disponíveis, assíduos, os olhos doces pousados no teu semblante austero, em ti, referência luminosa que abarcava todas as influências e desvanecia as certezas... E muito pausadamente, como quem degusta uma fruta, como quem deposita numa cova a flor da morte, eu os afastei - firmemente, para que não voltassem, não votassem nunca... e a tudo isso assistias com esse mesmo rosto inescrutável. Destruí tudo o que amavas – nem a convicção paralisante de que viveste legitimamente eu te permiti guardar no coração embotado. E nada te resta agora, senão a minha companhia eterna...” O homem estremeceu, fitou no Desespero um olhar de alma ferida, entreabriu os lábios, mexeu-os com vagar. O Desespero considerou de si para si que o homem orava ao Deus há muito abandonado no pedestal divino de cujo pé o homem se recusara a ajoelhar-se, e riu-se de escárnio. Mas o homem não orava. Recordava os beijos de paixão que trocara com a mulher que o enlouquecera, a dura caminhada através dos silêncios inamovíveis em busca de um conhecimento que lhe inculcara o mais langoroso desolamento, os amigos que sumiram mudos no alvoroço dos dias que não se repetiriam mais... Depois desse exercício de dor, ele levantou o corpo musculoso, a face reluzente de suor, os músculos contraídos, e disse: “Não importa o que me fizeres, não importa a que ermo estrangulado me leves na tua faina de impiedade... o gênio inquebrantável, esse não conseguiste furtar-me na tua armadilha... teus ardis não dobraram minha têmpera... viva eu sozinho, doente, espezinhado pelos fantasmas que fores me atirando como tomates podres, nem ao menos assim verás corar minha face de vergonha, nem remexer-se a minha boca num esgar! que eu me violente intimamente para não deixar transparecer na exterioridade das minhas pupilas o flagelo que ronda meus segredos! que eu redija a história larga dos opróbrios com o sangue irriga meus membros, de modo que a outro não se imponha, como a mim, o martírio de não ter salvação... que eu seja o teu filho, mas principalmente o teu maldizente! Se meu fado é carregar-te vida afora, que eu o faça de modo a jamais perceber-te senão quando estiver aparelhado de forças hercúleas com que repelir-te e amaldiçoar-te! Ainda que me tenhas roubado os horizontes”, arrematou o homem, erguendo a fronte lacerada e fitando o sol que desmaiava de cansaço, “não me furtaste as veredas”. O Desespero mordeu os lábios, enquanto fitava o homem que afastava num passo marcial, amparando com o pensamento as pernas que queriam titubear de fraqueza.
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